Espelho, espelho meu, existe alguém mais perfeita (o) do que eu?

Somos livres para escolher, entretanto, a liberdade não nos assegura sábias escolhas. Ou o indivíduo toma consciência do próprio sofrer perfeccionista enfrentando e buscando por novas possibilidades em ser, ora escolha viver no sofrimento. O homem é produto de sua própria criação.

Tarcila França

Nada, absolutamente nada parece bom quando o alvo é a perfeição. Faz, refaz, irrita-se, age com uma ansiedade que gela o coração e o suor nas mãos. A mente não dá trégua e o padrão de execução de tarefas simples é sempre o melhor. Assim, cada afazer não evolui do rascunho para o nível final. A descrição é de uma adolescente que preferiu não se identificar. Vamos chamá-la de Alice, 15 anos. Longe do mundo das maravilhas, nem um simples resumo de estudo para uma prova qualquer, fica pronto.

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Letras são escritas em um rigoroso capricho. Escreve, amassa, escreve de novo, joga fora, escreve, novamente e novamente. O lixo fica cheio, a mão transpira e a irritabilidade chega ao ápice. A ansiedade invade e faz tremer o coração. Alice não consegue se desvencilhar do perfeccionismo que a escraviza.

Ela encontra dificuldades para estudar, para confer ir as notas, sente vergonha quando o desempenho não é alcançado, encontra-se desmotivada. Ultimamente tem encontrado refúgio no sono. Arruma milimetricamente o celular padronizado por tamanho e cores de aplicativos, numa organização metódica. Mas, não para por aí. 

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Uma pessoa com rigor de perfeição traz em seu comportamento o mesmo rigor de educação recebido dos pais? O processo que determina como somos prolonga-se pela infância, marca a adolescência e penetra na idade adulta. “A determinação do projeto original descrito por Jean-Paul Sartre onde a pessoa cria uma imagem de si e realiza todas as suas escolhas a partir dessa opção primária ressalta que, não apenas ‘copiamos’ determinados padrões de comportamentos como também ‘criamos’ alguns deles”, explica a psicóloga, Djeyme Badocco Gonçalves.

O padrão rigoroso de comportamento se desenvolve com o passar do tempo. Um candidato a um emprego que, ao primeiro instante pode se vangloriar do perfeccionismo enquanto qualidade, também se mantém refém pelo alto padrão imposto. “A existência psicológica é a existência sob a forma de um Eu, portanto, somos um conjunto de experiências e vivências que influenciam nosso comportamento”, afirma. A percepção da realidade é a que determina a conduta. “Dentre as experiências que o indivíduo sente como sendo suas, existem aquelas menos estáveis e que também o caracterizam, assim como o pensamento perfeccionista”, explica.

Muitas pessoas são regidas pela premissa do perfeccionismo, mas quando se percebem incapazes pelo alto padrão de exigência criado, há pensamentos de depreciação e desvalorização pessoal. “Enquanto o bom conceito de si mesmo é essencial para um funcionamento eficaz, o autodescontentamento atrai todas as experiências catastróficas. A concepção negativa não é bem vinda ao crescimento, pois é acompanhada por um alto grau de ansiedade e por vezes depressão”, destaca a psicóloga.

O sofrimento pode advir da forma com que pensamos. Ao dar importância às coisas minuciosas perdemos a oportunidade de fazer o que realmente importa e o que proporciona prazer. A ansiedade pela busca da perfeição, a culpa quando algo dá errado em virtude do que poderia ter sido feito, a falta de aceitação são exemplos de desgaste físico e emocional advindos do pensamento perfeccionista. Nestes casos, o acompanhamento psiquiátrico pode ser um meio de favorecer a compreensão de certos comportamentos, até mesmo para uso de medicamentos em situações de exageros.

O pensamento perfeccionista resulta numa soma de vivências, experiências e escolhas que o próprio indivíduo faz, sendo também produto de sua própria criação. “Entretanto, se os homens são livres para se escolher, segundo Sartre, porque sofrem tão frequentemente de sintomas ou pensamentos desagradáveis? A liberdade de escolha não asseguram que elas sejam sábias. Podemos pensar em duas perspectivas: ou o indivíduo toma consciência do próprio sofrer perfeccionista enfrentando e buscando por novas possibilidades em ser, ou escolhe viver neste sofrimento não tendo consciência muitas vezes de sua responsabilidade frente a esta escolha”, cita Djeyme.

QUANDO O PERFECCIONISMO PREOCUPA    

Ser perfeccionista pode ser entendido de duas maneiras: ou como um grave defeito e autêntico, ou em uma forma de dizer que não se tem defeitos. Podemos entender o perfeccionismo por diversos prismas, ou modelos teóricos como ensina o médico psiquiatra, Thiago Fuentes Mestre. O que o senso comum julga por perfeccionismo é um padrão de comportamento rígido, rigoroso. Quando falamos de padrão de comportamento ao longo da vida, estamos falando de personalidade.

A personalidade é objeto de estudo de diversas linhas de pesquisa e de diferentes modelos teóricos. Dentre esses modelos, um dos mais influentes é o modelo psicobiológico de Claude Robert Cloninger criado em 1987 erevisado no ano de 1993. “Ele divide a personalidade em dois conjuntos de características, o primeiro ele chama de temperamento, que é herdado, geneticamente determinado, o segundo é o caráter, que é desenvolvido com o tempo, modelado pelo ambiente. A personalidade é a união de elementos de temperamento e caráter, união de elementos herdados e elementos desenvolvidos no contato com o ambiente”, explica.

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O perfeccionismo não é exclusivamente consequência de uma educação rígida. É possível que em uma determinada família, o padrão de criação de dois filhos seja muito similares, mas o padrão de perfeccionismo desses dois hipotéticos irmãos seja diferentes. “Isso não exclui a noção que ter pais rigorosos podem influenciar em um padrão rigoroso também nos filhos”, diz o psiquiatra.

É no período de desenvolvimento que será moldado e irá emergir os nossos padrões de comportamentos. Na infância, algumas dessas características aparecem. Por exemplo, algumas crianças vão ter uma tendência a se sentir mais confortável com elementos simétricos, se envolver na arrumação de suas coisas, podendo até ser rígida em emprestar brinquedos/objetos ou mesmo evitar se envolver em socialização. “Pode acontecer dessas crianças mudarem na adolescência, de acordo com seu desenvolvimento e outros fatores, e acabar por virar adultos não perfeccionistas”, destaca.

ANSIEDADE E TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO

Com relação ao perfeccionismo que surge na idade adulta, muito provavelmente está relacionado aos quadros de ansiedade ou ao transtorno obsessivo compulsivo. “A relação entre perfeccionismo e ansiedade não é tão direta assim. Muitas vezes, desordem ou coisas fora de um determinado padrão estimulam um desconforto, a essa emoção chamamos de ansiedade. Portanto, podem empreender atitudes voltadas para arrumar, organizar ou mesmo limpar, que ao final, aliviam a ansiedade. Chamamos esses comportamentos compensatórios de compulsões. Daí vem o termo obsessivo-compulsivo”, define.

Porém, o perfeccionismo pode estar relacionado também à noção de controle. ‘Muitas pessoas ditas ‘perfeccionistas’ são na realidade inseguras e portanto se envolvem com rigor em medidas que gerem sensação de controle. Por exemplo, realizar alguma tarefa diversas vezes, até chegar ao resultado com menor possibilidade de frustração”, observa Fuentes.

Para definir se alguma característica foge dos padrões ditos “normais” e assim ser passíveis de tratamento, a questão é o impacto e o grau de sofrimento gerado. Algumas pessoas com grau mais leve de perfeccionismo se beneficiam dessa característica. Artistas, atletas, programadores, engenheiros, cirurgiões, por exemplo. “Outras, já com nível maior de rigor, podem repetir tanto as tarefas ou ter um grau de ansiedade associado tamanha, que não conseguem mais ser produtivos, ou começar a evitar as atividades, pedir demissão de seus empregos, ou usar um tempo desproporcional para terminar mesmo as tarefas mais simples. É para essas pessoas, que sofrem ou estão ficando improdutivos, que os tratamentos estão indicados”, orienta o psiquiatra.

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