QUEBRANDO O SILÊNCIO SOBRE DISFUNÇÃO ERÉTIL

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 30% dos homens sofrem com a disfunção erétil, problema que ainda hoje é considerado um tabu.

Recentemente a Campanha Nacional pela Saúde do Homem, lançada pelo governo federal e pela Sociedade Brasileira de Urologia, começou a abordar temas até pouco ignorados.

Os dados divulgados durante o projeto revelaram uma situação alarmante: a falta de cuidado do homem com o próprio bem-estar.

De acordo com a pesquisa, os homens vivem aproximadamente sete anos a menos do que as mulheres. Além disso, a Sociedade Brasileira de Urologia entrevistou cinco mil homens e, desse total, 44% declararam nunca ter ido a uma consulta com o médico urologista.

Tudo isso tem origem nas práticas sociais de gênero relacionadas ao homem, que pouco o estimulam a cuidar da própria saúde.

O ideal de masculinidade acaba funcionando como uma forma de criar tabus, que impedem o autoconhecimento e a busca por ajuda em diversos problemas.

O caso da disfunção erétil não é diferente.

O assunto é temido e, por conta disso, muitas vezes desconhecido ou ignorado, o que acaba gerando ainda mais sofrimento para os que passam por essa condição.

Recentemente, houve a abolição do termo “impotência sexual”, que associa a função erétil ao vigor sexual, a fim de desmistificar o assunto e retirar associações prejudiciais.

Esse é um passo importante para que a complicação seja tratada de forma séria, focando o problema onde ele realmente está: no corpo e não na capacidade, masculinidade ou “potência” de quem o porta.

O VIGOR ESTÁ NA MENTE

O termo “impotência” carrega em si não apenas o sintoma do corpo, que é a disfunção erétil, mas também um juízo de valor, que tem efeitos drásticos sobre a autoestima e autoimagem do homem.

Um artigo divulgado na publicação ”Ágora – Estudos de Teoria Psicanalítica”, pela professora Maria Virginia Grassi, do Curso de Especialização em Sexualidade Humana da Unicamp, problematiza  os efeitos do distúrbio sobre a masculinidade.

O estudo da professora Maria analisa a expectativa que é criada em torno do desempenho sexual do homem, para que seja sempre “exemplar”, sendo que muitas vezes o efeito da ansiedade acaba gerando o contrário.


A análise dos casos examinados mostrou que em diversos casos, mesmo eliminado o sintoma, o paciente ainda se queixava de insatisfação ou inadequação sexual.

Sendo assim, é preciso dissociar a disfunção erétil de questões como o desejo, o vigor e a virilidade masculina, já que essa relação costuma gerar muita insegurança.

As neuroses psicológicas com frequência influenciam diretamente sobre o surgimento do problema e vice-versa, sendo até mesmo difícil determinar a origem da questão e esclarecer qual é a causa e qual é o sintoma.

“Ainda é raro ver homens procurando auxílio psicológico para este tratamento, mas tem aumentado a cada dia”, constata a psicóloga Eliane Maio.

Ela defende que cada caso é um caso e não é possível generalizar.

Entretanto, há um grande índice de causas psíquicas ou emocionais para diversas doenças e o campo da sexualidade não é diferente.

O artigo “Da impotência à disfunção erétil. Destinos da medicalização da sexualidade”, elaborado pelo pesquisador Alain Giami, doutor em psicologia, aponta questionamentos a respeito do problema, buscando compreender quanto dele pode ser considerado uma desordem psicossexual e a partir de onde as causas são orgânicas.

“A impotência masculina constituiu uma abrangência global de todo o ciclo da resposta sexual e, ainda, uma violação da identidade e da autoimagem”, defende.

Para a psicóloga Eliane, o auxílio terapêutico é importante; entretanto, o primeiro passo, ainda, é a procura de um médico urologista.

Segundo ela, depois de identificar as possíveis causas físicas, é o momento de procurar terapia sexual. “O importante é o homem querer mudar esta situação e acreditar que pode fazê-lo”, declara ela.

CAUSAS FÍSICAS

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ANTES DOS CINQUENTA

“Apesar de ser muito mais comum a partir da quinta década de vida, a disfunção erétil é uma doença que pode se manifestar em qualquer idade”, revela o médico urologista Alessandro Louredo.

Segundo ele, nesses casos é mais comum que a ocorrência tenha origem em desordens psicogênicas, de fundo psíquico ou emocional.

Na juventude, é comum que a dificuldade de ereção apareça de modo pontual, em situações específicas ou de forma moderada. Entretanto, alguns pacientes apresentam o distúrbio com frequência acima da esperada.

A situação de vida na qual o indivíduo se encontra é fator determinante. Traumas, crises financeiras ou de relacionamento são capazes de desencadear o problema.

Além disso, diversos fatores genéticos, orgânicos, primários podem estar por trás. “Malformações congênitas, distúrbios circulatórios e uso de medicações específicas podem ser a causa e devem ser hipóteses consideradas pelo médico”, explica o urologista Alessandro.

Afinal, embora esteja conectada a processos psicológicos, a ereção não deixa de ser uma reação neurovascular, que envolve nervos, sangue, capacidade cardíaca e diversos outros aspectos orgânicos e biológicos do corpo.

Em avaliação de pacientes submetidos a tratamentos renais, como a hemodiálise, a Unidade de Diálise e Transplante Renal da Santa Casa de Misericórdia de Sobral, localizada em São Paulo, constatou, que mais de 40% dos pacientes em tratamento, independentemente da idade, queixavam-se de disfunção erétil em algum grau.

Em síntese, não é possível afirmar que a manifestação da disfunção erétil em jovens de vinte ou trinta anos seja necessariamente fruto de uma reação psicossomática.

Hábitos de vida, práticas cotidianas e até mesmo a formação congênita do indivíduo podem refletir no organismo, originando esse sintoma.

TUDO COMEÇA COM EDUCAÇÃO

Embora a relação sexual tenha sido, por muito tempo, definida como meramente instintiva, hoje já se sabe que está permeada por questões educacionais, sociais e culturais.

“Uma educação repressora ou a falta de orientações podem causar problemas que se refletem no desempenho sexual”, argumenta a psicóloga Eliane Maio.

Segundo ela, o próprio tratamento psicológico de homens que manifestam a disfunção erétil consiste em buscar a origem consciente ou inconsciente que pode estar dificultando a relação da pessoa com o próprio corpo.

Essa formação inconsciente costuma estar relacionada às orientações voltadas para a sexualidade que o paciente recebeu anteriormente.

Uma pesquisa realizada pelo Projeto Avaliar promoveu o cruzamento da manifestação da disfunção erétil com diversos aspectos do indivíduo, como idade, nível educacional, estado civil, entre outros.

A análise revelou que a incidência do problema é maior em indivíduos com menor nível de instrução.

A educação sexual ainda é um desafio no Brasil, especialmente por se tratar de uma necessidade que só passou a ser reconhecida recentemente.

Diante disso, os caminhos traçados ainda são, de certa forma, experimentais.

O quarto volume da Revista Brasileira de Sexualidade Humana aponta a necessidade de reconhecer a diferença entre informação e educação.

A informação é o primeiro estágio do processo educativo, mas se não há continuidade não é possível promover mudanças significativas de visão ou comportamento.

ALÉM DO CORPO

Um estudo promovido pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo demonstrou, que a eclosão da disfunção erétil é capaz de influenciar muitas outras particularidades do sujeito.

Baixa autoestima, problemas no relacionamento, dificuldades com filhos, amigos, no trabalho e lazer foram algumas das principais queixas apresentadas.

PREVENÇÃO

De acordo com o médico urologista Fernando Dias, enquanto apenas 1,9% dos homens com 25 anos apresentam casos frequentes do sintoma, o percentual sobe para 39% nos homens com 40 anos e ultrapassa os 50% nos que estão acima de 70.

Ou seja, a principal causa ainda está relacionada com a idade e os problemas que surgem com ela.

O urologista Fernando defende que a prevenção do distúrbio está, principalmente, na manutenção de um estilo de vida saudável.

“A prática de atividade física regular, a alimentação saudável e o controle de fatores de risco, caso o sintoma esteja associado à outra doença, colaboram para evitar o problema”, explica.

Os fatores que encadeiam a disfunção erétil costumam ser os mesmos relacionados a complicações cardiovasculares, já que o desempenho sexual está ligado à ação saudável do cérebro e da circulação sanguínea.

Sendo assim, tomar medidas preventivas voltadas para a saúde do coração é também proteger a sexualidade.

TRATAMENTO

Idade, condições clínicas, reação do organismo e muitos outros fatores relacionados ao paciente são determinantes na hora do tratamento, de acordo com o urologista Fernando.

Hoje em dia diversos setores podem trabalhar de forma integrada para um efeito positivo: desde a psicoterapia, até a recomendação do medicamento via oral ou injetável.

O importante é, primeiramente, desvendar a causa, para não agravar essa ou outras disfunções do organismo com o recurso terapêutico equivocado.

A partir do diagnóstico feito pelo médico, é que serão definidas as intervenções necessárias.

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