DE BEM CONSIGO MESMO

Quando a pessoa adquire maturidade e autoconfiança, ela se torna mais seletiva e passa a buscar em si mesma a principal fonte de felicidade e realização

Eu li, recentemente, em uma postagem numa rede social, a seguinte frase: “Você chega em casa, faz um café, senta na sua poltrona favorita e não tem ninguém.Você é quem decide se isso é liberdade ou solidão”.

Tenho atendido inúmeros pacientes que se questionam por que precisamos tanto de alguém para nos fazer companhia. Essa questão é vivenciada por muitas pessoas, independentemente de serem solteiras, casadas ou vivendo uma união estável.

Reflito, a respeito, que uma união duradoura é algo desejável desde que o mundo é mundo. Ou seja, já em Gênesis, primeiro livro da Bíblia, consta que após ter criado os Céus e a Terra, Deus criou o homem, e disse: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”.
E assim tem sido, no decorrer dos séculos. Com base nesse ensinamento acredita-se que, necessariamente, a nossa vida precisa, sim, ser dividida com outro alguém. Precisamos da “metade da nossa laranja”, da “tampa da nossa panela”, conforme afirmam popularmente.

Quem sou eu para ir contra a vontade de Deus? Particularmente, acredito, sim, na “instituição” casamento, mas quando ele não é saudável? E quando não nos faz bem? Aí é que surge o medo de ficar sozinho (a), de não ter mais a segurança, a presença, a opinião do outro, e acaba-se por descansar numa “zona de conforto”, não tão confortável assim.

CRIAÇÃO DO MUNDO
Já que remontamos a um tempo tão antigo, o da criação do mundo, é bom refletir que muita coisa mudou nas várias sociedades que foram se formando no decorrer dos séculos. Elas se diversificaram e vieram mudanças na forma de os homens se agruparem, mudanças de hábitos, de comportamentos, e até nas leis que regulam as relações humanas.

Neste tempo em que vivemos existem casamentos menos duradouros, por inúmeros motivos que não cabe aqui discutir. Após uma separação é comum um dos cônjuges avaliar que muitas vezes somos experts em como agradar ao outro, e quando se questiona os próprios gostos fica difícil não confundir “o que é meu” em relação a “o que eu fazia para agradar”.
Quando isso não é trabalhado devidamente, as nossas preferências se perdem tanto em meio a inúmeras tentativas de ser quem não se é, que fica difícil saber se a sensação dominante é a de estar liberto de uma situação ou refém de lembranças de alguns momentos bons, que até justificavam ir levando a relação.

O QUE A VIDA OFERECE
Aí vem então o momento de fazer um balanço sobre o que a vida pode oferecer para se colocar num patamar de conforto verdadeiro, de maneira a justificar a existência. Surge o momento de avaliar o jeito de ser e de estar no mundo. Necessário rever as tarefas que impõe a si mesmo ou que toma como suas, verificar se não se encontra imerso no mundo virtual, o da tecnologia.

Deixar-se encantar com a música, a literatura, as artes em geral, etc., rever as amizades que cultiva, eliminando as que são tóxicas, para que não mais se feche em si mesmo, mas aprenda a cultivar a alegria de estar com o semelhante.

Quando se adquire tal maturidade é possível, sim, sentir-se bem e feliz conosco mesmos, o que nos torna mais seletivos. Não é só um “rostinho bonito” que vai nos atrair para amar de novo. Agora não mais somos metades à procura do que nos complete. Podemos nos dar, nesse estágio, o que pode nos fazer sentir plenos. Teremos, dessa forma, a sabedoria de escolher quem possa nos valorizar, e não mais seremos metade de nada nem tampa de nada.

MARCAS DA HARMONIA
Se vier alguém que traga as marcas da harmonia, daquilo que nos faça bem poderemos, sim, pensar em recomeçar. Mas é preciso antes passar por um estágio em que aprendamos a nos conhecer melhor, a confiar em nós mesmos, e não esperar que nossa felicidade venha de outro alguém.

Pode ser até que demore ou que nem venha esse ser harmonioso. Por que não curtir esse momento de tomar o café esparramado na poltrona favorita, e concluir que isto não é solidão, mas um estado bom de privacidade para se fazer o que bem quiser?

ELISE DE CNOP CONGESKI

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